quinta-feira, 16 de junho de 2011

Uma espada paira sobre nossas florestas

Um estudo do IPEA divulgado na manhã de hoje desmascara o que os ruralistas tentam esconder a todo custo

(c) Greenpeace / Rodrigo Baleia
O texto do Código Florestal aprovado na Câmara irá mesmo causar mais desmatamentos e anistiar quem descumpriu a lei, comprometendo nossos recursos naturais e favorecendo principalmente os grandes proprietários de terra.

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) é uma fundação pública federal vinculada à Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. O estudo teve como objetivo avaliar os possíveis impactos do PL 1.876/99-C sobre as áreas de Reserva Legal (RL) no Brasil.

“Há tempos denunciamos que os ruralistas fizeram um texto para anistiar o crime ambiental e estimular o desmatamento. O estudo divulgado pelo IPEA confirma e põe números ao que vínhamos dizendo”, afirma Marcio Astrini, coordenador da campanha da Amazônia.

Veja abaixo alguns números apresentados pelo Estudo e suas consequências caso o texto aprovado entre em vigor:

Aumento do Desmatamento em 47 milhões de hectares.

O estudo considerou a hipótese de que a mudança da lei poderá influenciar desmatamentos futuros nas áreas isentas de reserva legal, levando a uma perda total da vegetação dessas áreas que deixarão de ser averbadas e ter assim proteção legal. A perda total de área de reserva legal, relativa aos imóveis de até quatro módulos fiscais, poderá chegar a 47 milhões de hectares. A maior parte dessa área ocorrerá na Amazônia com 24,6 milhões de há (53%).

Anistia = 29,6 milhões de hectares

135,7 milhões de hectares, correspondente à área dos imóveis de até quatro módulos fiscais, deixarão de compor a base de cálculo para recuperação de RL. O passivo total estimado isento de ser recuperado é de 29,6 milhões de hectares, sendo que a maior parte deste passivo ocorreu na Amazônia e é de 18 milhões de ha (61%).

Premiando quem desmatou

¨... anistiar os passivos e obrigar, sem nenhum benefício compensatório, a manutenção das RLs daqueles que cumpriram a lei vigente, sinalizaria que há a possibilidade de se beneficiar, no futuro, do descumprimento da legislação fundiária ou ambiental.

(...)

"A alteração do PL 1.876/99 apresenta outra implicação relevante: a anistia de recomposição das áreas de reserva legal pune o proprietário rural que está cumprindo a legislação atual, uma vez que haverá uma tendência de desvalorização do seu imóvel"

PL dos Ruralistas – De braços dados com o aquecimento global.

A pesquisa estimou que a quantidade de carbono que pode deixar de ser retida, caso os passivos de reserva legal hoje existentes nos imóveis de até quatro módulos fiscais sejam anistiados, é de 3.1 bi de tC. O bioma Amazônico seria onde a maior parte do carbono deixaria de ser incorporado à vegetação.

O documento ainda aponta que: ¨Os resultados obtidos neste estudo indicam que a alteração proposta no PL 1876/99 para as áreas de RL impactarão significativamente sobre a área com vegetação natural existente nos biomas brasileiros e sobre os compromissos assumidos pelo Brasil para redução de emissões de carbono.¨

O texto dos ruralistas não interessa á agricultura familiar

O estudo ainda questiona a serventia do texto aprovado á agricultura familiar. Segundo o texto, a lógica de permitir mais desmatamentos para a implementação da agropecuária convencional e de baixo valor por área não seria a melhor solução econômica para pequenos imóveis. Ao contrário, aponta que o uso econômico da floresta seria muito mais rentável á este tipo de agricultor:

"Ao prever a possibilidade de uso econômico das reservas legais, o Código Florestal

reconhece a potencialidade dessas áreas para o desenvolvimento econômico sustentável. Em primeiro lugar, são atividades ambientalmente adequadas, uma vez que necessitam que a vegetação seja preservada, o que permite seu uso permanente. Em segundo, sistemas sustentáveis de exploração da floresta são intensivos em mão-de-obra, consistindo, portanto, num potencial gerador de empregos e de desenvolvimento da agricultura familiar. Em terceiro, fornecem mais segurança econômica ao produtor, em virtude da diversificação e da menor incidência de pragas, comuns na monocultura. Em quarto, podem ser altamente rentáveis, podendo apresentar rendimentos por área mais elevados do que a agropecuária convencional para o pequeno produtor.

Os estabelecimentos agropecuários, sobretudo a pequena propriedade familiar, deveriam ser estimulados a conservar e recuperar suas reservas legais de forma a auferir rendimentos mediante o uso sustentável da floresta. Esse incentivo poderia vir por meio de políticas de estímulo ao uso sustentável da reserva legal."

UNB

Nesta segunda feira, pesquisadores do Centro de Desenvolvimento Sustentável da UnB apresentaram projeções sobre o aumento do desmatamento para o ano 2020 também levando em consideração o texto dos ruralistas aprovado na Câmara. Resultado: do jeito que está, o texto poderá provocar um desmatamento 47% maior que o previsto para 2020. Já se a legislação atual fosse mantida e o Estado aumentasse a fiscalização, o desmatamento seria 25% menor que o projetado para os próximos 10 anos.

Desde o início dos debates sobre o Código Florestal, a bancada da motosserra sempre lutou para manter cientistas e estudiosos fora deste debate. Agora sabemos o porquê: eles colocam no papel a verdade sobre as reais intenções dos ruralistas , completa Marcio Astrini.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Radiação excessiva é encontrada na água de Tóquio

Radiação excessiva é encontrada na água de Tóquio

BBC Brasil

"Imagem do reator 4 da usina de Fukushima, em foto divulgado pela operadora Tepco"

Segundo a ONU, ainda há vazamento de radiação em Fukushima

Autoridades em Tóquio afirmaram nesta quarta-feira que os níveis de radiação da água das torneiras da cidade a deixam imprópria para o consumo por bebês.

O nível de iodo radioativo em algumas áreas é de mais do que o dobro do nível considerado seguro.

O governo japonês impôs novas restrições ao consumo de alimentos de áreas afetadas pelos vazamentos da usina nuclear de Fukushima.

Os Estados Unidos também anunciaram restrições à importação de certos alimentos japoneses.

Os níveis de iodo-131 radioativo em algumas áreas de Tóquio é de 210 becquerels (unidade de medida de radiação) por litro. O nível considerado seguro para o consumo por bebês é de 100 becquerels por litro.

As autoridades advertiram a população a não dar água da torneira para crianças, mas não houve uma advertência imediata em relação ao consumo por adultos.

O Japão luta para conter o vazamento de radiação nos reatores da usina de Fukushima, atingida pelo terremoto e pelo tsunami do dia 11 de março.

Mortos e danos

O governo japonês confirmou nesta quarta-feira 9.079 mortes em consequência do tremor e do tsunami. Outras 12.645 pessoas ainda estão desaparecidas.

O custo dos danos provocados pelo desastre foram estimados entre 16 trilhões e 25 trilhões de ienes (entre R$ 328 bilhões e R$ 513 bilhões).

O primeiro-ministro do Japão, Naoto Kan, ordenou aos governadores das províncias de Fukushima e da vizinha Ibaraki que interrompessem os carregamentos de vários produtos agrícolas para exportação.

A lista inclui verduras, brócoli, salsinha e leite não-pasteurizado, após testes terem indicado níveis de radiação maiores do que o normal.

O chefe de Gabinete do governo japonês, Yukio Edano, afirmou em uma entrevista coletiva que os importadores de alimentos japoneses devem adotar uma 'atitude lógica'.

Os fabricantes e comerciantes de alimentos e peixes japoneses expressam uma crescente preocupação sobre os efeitos que a crise poderá ter sobre suas fontes de renda.

Vazamento

Funcionários do reator 2 da usina de Fukushima interromperam novamente os trabalhos de resfriamento nesta quarta-feira, após uma elevação nos níveis de radiação.

A agência de energia atômica da ONU afirmou que ainda há radiação vazando da usina.

A empresa operadora da usina Fukushima Daiichi, a Tepco (Tokyo Eletric Power), afirmou que a restauração da energia elétrica em todos os reatores poderá ainda levar semanas ou até meses.

Na terça-feira, um alto funcionário da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica), James Lyons, disse que não poderia confirmar se os reatores danificados estavam 'intactos' ou se racharam e estariam vazando radiação.

'Continuamos a ver radiação saindo do local e a questão é saber de onde exatamente ela está vindo', afirmou Lyons.

O governo japonês retirou dezenas de milhares de pessoas em um raio de 20 quilômetros da usina e disse aos moradores a até 30 quilômetros de distância para permanecerem dentro de casa. Os Estados Unidos recomendaram uma zona de exclusão num raio de 80 quilômetros para seus cidadãos.

O vice-presidente da Tepco, Norio Tsuzumi, visitou os centros de desabrigados para se reunir com as famílias obrigadas a deixar suas casas.

Curvando-se bastante, num sinal de respeito segundo a cultura japonesa, ele disse: 'Como tentei administrar este problema diretamente com o governo, minha visita para encontrar vocês diretamente foi adiada. Por isso, eu também peço desculpas do fundo do meu coração'.

Enquanto isso, tremores secundários continuam a assustar a população do nordeste do Japão, aumentando ainda mais os problemas das mais de 300 mil pessoas ainda alojadas em centros de desabrigados em 16 províncias japonesas.

Dezenas de milhares de casas ainda estão sem energia e mais de 2 milhões de pessoas estão sem água, segundo as autoridades japonesas.

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domingo, 20 de março de 2011

O apogeu da cana no Sudeste do Brasil

Crédito: Mario Osava/IPS

Crédito: Mario Osava/IPS

Ribeirão Preto, Brasil, 18/3/2011 – As estradas são excepcionalmente boas e numerosas, em contraste com outras partes do Brasil, mas a monotonia da paisagem não convida ao turismo. Os canaviais dominam o horizonte, as cores e os odores, em um longo eixo de 400 quilômetros para o Norte de São Paulo. No centro dessa área com singular desenvolvimento econômico e social, como maior produtora de açúcar e etanol do país, está Ribeirão Preto, uma das cidades mais ricas do Brasil, com 605 mil habitantes e renda por pessoa que é o dobro da média nacional.

A cana promove o progresso local porque seu cultivo leva à industrialização. Começa a perder potencial produtivo 48 horas após ser colhida e isso obriga que seu processamento seja local e impede sua exportação para ser transformada longe. Ao contrário de outros grandes cultivos, como café e soja, sua curta cadeia produtiva mantém seu processamento no mesmo lugar, sem intermediações, e isso permite baixos preços, para beneficio do consumidor, disse o engenheiro Cícero Junqueira Franco, um dos líderes históricos do setor que, aos 79 anos, ainda é um influente sócio de várias empresas.

Contudo, foi o Programa Nacional do Álcool (Pró-Álcool), criado em 1975 para substituir parcialmente o consumo de gasolina e reduzir a importação de petróleo, que incentivou a prosperidade atual da região de Ribeirão Preto, convertida em um imenso canavial. Trata-se do etanol, mais conhecido como álcool. Sua produção em grande escala “mudou a estrutura do setor e mudou o Brasil”, disse à IPS Cícero, um dos “pais” do Pró-Álcool, que com outros empresários propôs ao governo criar essa política em 1974, quando o petróleo quadruplicou seu valor por causa da primeira grande crise de preços no setor.

Na época, o Brasil importava 85% do petróleo que consumia e sua repentina alta freou o crescimento econômico do país. O etanol surgiu para superar a crise, em uma conjuntura que coincidiu com um excesso de cana no mercado nacional, devido a estímulos governamentais para a produção. Assim, o Pró-Álcool nasceu para solucionar dois problemas, disse Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2006) e agora professor universitário e presidente do Conselho de Agronegócios da Federação das Indústrias de São Paulo.

Nos 35 anos do programa, a produção brasileira de etanol saltou de 611 milhões de litros para 27,7 bilhões em 2010, enquanto a de açúcar mais do que quintuplicou, ao atingir 38,7 milhões de toneladas. Para atender essas duas demandas, a área cultivada aumentou quatro vezes, o que permitiu multiplicar por sete a cana colhida. Em 2010, a extensão cultivada foi de 8,1 milhões de hectares e a produção de 625 milhões de toneladas.

Isso só foi possível porque a produtividade aumentou cerca de 3% ao ano, um crescimento “brutal” em termos agronômicos, explicou Cícero em sua residência rural, um oásis com árvores e água de um riacho, perto de canaviais por todos os lados, no município de Orlândia, 55 quilômetros ao norte de Ribeirão Preto. Essa acelerada expansão rompeu o controle que o governo exercia sobre o setor da cana, mediante cotas de produção e o monopólio das exportações, e transformou o interior do Estado de São Paulo, especialmente o Nordeste, onde se concentrou o cultivo.

Antes, poucas instalações processadoras contavam com um engenheiro e hoje em dia “dificilmente têm menos do que três”, disse Cícero. Se for somada a produção de açúcar e álcool, nos engenhos trabalham 31 diferentes profissionais universitários, acrescentou. O Pró-Álcool “oxigenou um sistema esclerosado”, o modernizou e atraiu novos empresários, “abrindo mentes”, disse Maurilio Biagi Filho, outro líder do setor, com experiência na indústria de equipamentos e bebidas. Também dirigiu várias unidades transformadoras, após viver sua infância em uma delas, fundada por seu pai.

Eletricidade, plásticos e outros produtos químicos, fertilizantes e enzimas entraram nos planos do setor açucareiro. As pesquisas científicas e tecnológicas ganharam um forte impulso na região, o que promoveu a instalação de universidades e centros criados pela própria indústria do açúcar e do álcool.

A expansão favoreceu o desenvolvimento de uma diversificada indústria de máquinas para cultivo da cana e sua transformação em açúcar, álcool e energia. Sertãozinho, a 20 quilômetros de Ribeirão Preto, concentra 550 empresas, que em sua maioria fornecem também equipamentos para outros setores, como petroleiro e hidrelétrico, dentro e fora do Brasil.

A colheita está 70% mecanizada e deverá chegar aos 100% em 2014, o que ampliou o mercado industrial, ao aumentar a demanda por colheitadeiras e veículos de coleta. A exigência é ambiental e busca eliminar incêndios produzidos para facilitar a colheita manual da cana. Os hotéis lotados em todas as cidades da região refletem esse dinamismo econômico impulsionado pela cadeia produtiva açucareira.

No entanto, falta uma “política mais clara”, disse Maurilio à IPS. O etanol segue o ciclo da cana. Sem colheita no primeiro trimestre e sem estoques reguladores, acumulados e controlados pelo governo para estabilizar o mercado, o etanol escasseia porque se destinou mais cultivo à produção de açúcar, por seus preços maiores desde 2010. Os veículos com motores flex são produzidos no Brasil desde 2003, o que permite abastecê-los com o combustível mais barato. Desta vez a demanda por etanol não caiu na proporção esperada.

O aparente progresso gerado pela economia da cana tem seus críticos. A mecanização começou no final dos anos 1980 para conter o movimento dos cortadores de cana em defesa de seus direitos, “não por razões ambientais”, disse à IPS Helio Neves, presidente da Federação dos Empregados Rurais do Estado de São Paulo. Além disso, deixará sem emprego milhares de trabalhadores e sua capacitação para novas ocupações é menor do que a demanda, acrescentou.

A cana é “uma planta maravilhosa”, mas sua monocultura concentra o poder nas empresas “em detrimento da democracia, impondo uma ditadura do econômico sobre o social”, lamentou Helio, respeitado sindicalista, protagonista da violenta greve de 1984 dos cortadores em Guariba, a 65 quilômetros de Ribeirão Preto.

Além disso, a prosperidade da cana é distribuída desigualmente. Ribeirão Preto, por concentrar os serviços melhor remunerados, e Sertãozinho são cidades privilegiadas. Entretanto, a pobreza relativa e a falta de emprego forçam milhares de mulheres de Guariba, Barrinha e outros municípios com muita cana, mas sem indústrias, a trabalharem como domésticas em Ribeirão Preto.

É o caso de Maria Alcântara Silva, de “mais de 30 anos”. Há seis percorre duas vezes ao dia os 35 quilômetros que separam sua cidade, Pradópolis, de Ribeirão Preto, onde a melhor remuneração compensa o gasto com ônibus. Pelo menos permite que mantenha o filho estudando química na universidade, afirmou. Em Guariba há 620 mulheres registradas como domésticas em Ribeirão Preto e a prefeitura lhes paga 40% do transporte, informou José Roberto de Abreu, secretário municipal do Emprego e das Relações do Trabalho. Envolverde/IPS

FOTOCrédito: Mario Osava /IPS

Legenda: A paisagem infinita de canaviais na região de Ribeirão Preto.

Sistemas de alerta afogados pelo tsunami

Imagem Ilustrativa

Imagem Ilustrativa

Nova York, Estados Unidos, 18/3/2011 – O avançadíssimo sistema de alerta de desastres do Japão evitou uma quantidade maior de mortes com o terremoto de nove graus na escala Richter na semana passada, mas não pôde com o tsunami, que afogou a capacidade de reação deste que é o terceiro país mais industrializado do mundo.

O terremoto deixou cem mortos. Mas a posterior onda de dez metros matou 3.200 pessoas em 12 municípios, embora outros dados menos conservadores falem que foi pelo menos o dobro. Estima-se que nos próximos dias a quantidade de mortes chegue a dez mil. Além disso, há mais de 15 mil desaparecidos nas áreas afetadas, informou a imprensa oficial.

Somente em Fukushima, é desconhecido o paradeiro de 1.200 pessoas, quantidade que seguramente aumentará nos próximos dias. Mais de dez mil ficaram perdidas em Iwate e outras mil em Miyagi e Fukushima. A localidade de Minami Sannriku, em Miyagi, e a de Otsuchi, em Iwate, são as mais afetadas com cerca de 20 mil pessoas, e cerca da metade não manteve contato com o exterior até o dia 15.

O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação da Assistência Humanitária (Ocha) enviou a Tóquio, no dia 14, sua equipe de Coordenação e Avaliação de Desastres (Undac), a pedido do governo japonês, para coordenar o fluxo de assistência estrangeira. “A equipe colabora com a gestão de informação e as ofertas de ajuda”, disse à imprensa Martin Nesirky, porta-voz do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, que ontem “enviou uma missão de reconhecimento para Fukushima e Miyagi”.

A Undac desempenha um papel mais limitado porque as autoridades japonesas estão preparadas para dirigir o grosso da busca e dos resgates. Sua missão é oferecer alguns serviços específicos e deixar para o governo as grandes decisões. “A Undac oferece assessoria sobre serviços e produtos internacionais que chegam ao país para reduzir as contribuições não solicitadas”, disse à IPS Stephanie Bunker, porta-voz do Ocha em Nova York. “É um trabalho muito importante. As pessoas têm boas intenções, mas um excesso de assistência sem coordenação não é bom”, acrescentou.

A equipe de resposta a desastres é formada por sete pessoas, da França, Grã-Bretanha, Índia, República da Coreia, Suécia e também do Japão. Foi criado um Centro de Coordenação e Operações no local para distribuir informação à comunidade internacional nos próximos dias.

Cerca de 420 mil pessoas foram evacuadas das áreas atingidas pelo terremoto e pelo tsunami, das quais metade é de Miyagi e o restante de Fukushima, Iwate, Ibaraki, Tochibi e Aomori, segundo o Ocha. “Não temos estimativas sólidas do custo total que implica o desastre. É muito cedo para ter um número coerente”, disse Stephanie à IPS. Quase quatro mil construções no Nordeste de Tohuku foram totalmente destruídas e outras 55 mil ficaram muito danificadas pelo terremoto, o tsunami e os incêndios.

A Autoridade Nacional da Polícia Japonesa informou que a interrupção de estradas e pontes virtualmente paralisou grande parte do sistema de transporte. Quase 850 mil famílias clientes da Companhia de Energia Elétrica de Tóquio e de Tohuku carecem de água, gás e eletricidade. A falta de alimento e água piora a cada hora.

A Cruz Vermelha japonesa começou a oferecer assistência médica e psicológica a sobreviventes e evacuados. “Nunca vi algo tão terrível como isto”, disse Tadateru Konoé, presidente dessa organização, após visitar Iwate. Cerca de 430 mil evacuados moram em menos de 2.500 locais provisórios como escolas e outros prédios públicos, segundo a organização. “Chegam muitas pessoas aos hospitais com hipotermia e risco de pneumonia. Muitas pessoas sofrem as consequências de terem bebido água contaminada durante o tsunami”, diz o informe divulgado à imprensa.

O Japão aceita a ajuda especializada de algumas agências humanitárias, mas demonstra uma extraordinária resiliência e grande eficiência diante do desastre. Mais de cem mil soldados, 95 mil bombeiros e 920 unidades da polícia trabalham sem cessar retirando pessoas em perigo, localizando desaparecidos e distribuindo ajuda o mais rápido possível.

Exército e polícia resgataram mais de 2.200 pessoas e a guarda costeira e a Agência de Gestão de Desastres e Incêndios quase outras três mil, entre elas 970 que estavam em povoados isolados, informou o Ocha. Além disso, já foram reparadas 121 estradas e 28 pontes, o que facilita as operações de assistência e resgate. Envolverde/IPS

França acorda com desastre nuclear japonês

Crédito: Menekse Cam

Crédito: Menekse Cam

Paris, França, 18/3/2011 – A maioria dos franceses não se preocupava se os 58 reatores nucleares do país são seguros o bastante para continuar operando vários anos mais, até que o Japão começou a ter problemas nas centrais de Fukushima. A população ignorava as provas apresentadas por ativistas que, apesar da indiferença geral, continuaram remexendo nas incomensuráveis complexidades da burocracia francesa em matéria energética para encontrar a verdade sobre a precariedade das usinas nucleares.

Após a catástrofe nuclear japonesa, até o mais estoico dos franceses começou a refletir sobre a possibilidade de seu país estar à beira do desastre. Não foram feitas pesquisas de opinião representativas, mas uma quantidade substancial de pessoas ouvidas por alguns meios de comunicação disse estar a favor de uma política menos dependente da energia atômica. A imprensa conservadora, a favor das usinas, revelou ontem que no ano passado houve mil acidentes de diferentes intensidades nos complexos atômicos do país.

Os dados oficiais constam de um informe sobre segurança nas centrais da França que será apresentado ao parlamento em abril. O documento preparado pela Agência de Segurança Nuclear deveria ser confidencial, mas se tornou público com o desastre no Japão após o terremoto e o tsunami. A França é o país europeu com mais centrais nucleares em funcionamento e o que mais depende dessa fonte de energia no mundo. Os 58 reatores geram 80% da eletricidade consumida. A densidade de sua localização é tal que ninguém consegue estar a mais de 300 quilômetros de distância de um reator.

A grande quantidade de acidentes nas centrais atômicas não é novidade para os ativistas franceses. Metade delas tem mais de 25 anos, disse à IPS o presidente do Observatório de Energia Nuclear, Stéphane Lhomme. “Metade dos reatores está perto do final de sua vida útil e sofre os problemas da idade”, afirmou. Numerosos reatores também sofrem “defeitos de projeto”, que regularmente causam anomalias técnicas, disse Stéphane. “A França esteve várias vezes à beira de um desastre nuclear nos últimos dez anos”, assegurou.

Quando o Furacão Martin atingiu a parte sudoeste da costa atlântica da França, em dezembro de 1999, a usina de Blayais, perto da cidade de Bordeaux, foi inundada pela água do mar e teve de ficar fechada vários dias. “Estivemos perto de uma catástrofe”, recordou Stéphane. Uma rachadura no sistema de esfriamento da central de Civaux, em maio de 1998, causou um grande vazamento radioativo que por várias horas ficou fora de controle. A usina ficou fechada por dez meses. Várias centrais francesas estão localizadas em áreas de atividade sísmica, disse.

“O risco de um terremoto da intensidade do registrado no Japão é baixo na França, mas nossas usinas são mais frágeis do que as dos japoneses”, ressaltou Stéphane. A central mais antiga da França, em Fessenheim, perto da fronteira com a Alemanha e a Suíça, está em “uma área de muita atividade sísmica e perto de um rio”. Apresentou numerosos problemas técnicos, a maioria em seus sistemas de resfriamento, e teve de permanecer fechada quando 50 metros cúbicos de gás radioativo vazaram para a atmosfera, acrescentou.

Não parece que a França vá diminuir sua dependência da energia nuclear no futuro próximo, apesar da amplitude de provas sobre os defeitos técnicos. “Todos os partidos políticos defendem esta fonte de energia e estão ligados, de uma forma ou outra, ao complexo industrial. A França não tem alternativa”, explicou Stéphane.

Não surpreende que o governo francês tenha tentado minimizar a dimensão da crise japonesa. A explosão em Fukushima “não foi uma catástrofe”, disse inicialmente o ministro da Energia, Eric Besson, que depois se corrigiu e afirmou que “um pesadelo havia voltado”. Acrescentou que “é legitimo um debate sobre energia nuclear na França, mas não é indispensável. Continuo acreditando em seu uso com fins civis”.

A oposição pediu um referendo sobre uso da energia nuclear. Os dirigentes do Partido Verde sugeriram eliminá-la em 25 anos. O primeiro-ministro, François Fillon, considerou “absurda” a conclusão a que chegaram jornais e ambientalistas de que “após o acidente de Fukushima, a energia nuclear está completamente condenada”. O governo anunciou que controlaria a segurança de todas as usinas em operação.

A primeira medida que a França pode tomar para reduzir sua dependência nuclear é diminuir o “descuidado consumo elétrico”, disse Stéphane. “Economizaríamos uma grande quantidade se isolássemos melhor as casas e os prédios e deixássemos de nos aquecer com eletricidade”, acrescentou. Dos lares franceses, 80% usam aquecedores elétricos. “É a consequência da conivência entre o monopólio estatal Eléctricité de France e a indústria da construção, que não instala gás nem outros sistemas de calefação nas residências”, explicou.

A França poderia abandonar a energia nuclear em 2035 se adotasse uma política baseada na eficiência energética, para reduzir o consumo desnecessário, e um programa maciço para usar fontes renováveis, especialmente as eólica e solar, segundo a négaWatt, associação de 350 especialistas.

“Em 2035 poderíamos fechar todas as usinas nucleares e dependermos apenas de geradores geotérmicos e hidrelétricos de menor escala, grandes parques com turbinas eólicas, estruturas fotovoltaicas e unidades de biomassa, e ter energia suficiente para atender as exigências elétricas do país”, disse à IPS o diretor da négaWatt, Thierry Salomon. Em 2050, a França consumiria o dobro da eletricidade que usa agora e poderia não necessitar da energia nuclear, segundo Thierry. “Não voltaríamos a usar velas nem necessitaríamos de centrais atômicas”, acrescentou. Envolverde/IPS

IMAGEMCrédito: Menekse Cam - Para conhecer o trabalho da artista acesse http://www.toonpool.com/artists/menekse%20cam_1581.

Estudo mostra que exercícios aeróbicos ajudam a manter o cérebro saudável na velhice

Estudo mostra que exercícios aeróbicos ajudam a manter o cérebro saudável na velhice

Um estudo realizado por um grupo de universidades norte-americanas revelou que exercícios físicos aeróbicos podem diminuir a perda de memória em idosos e prevenir o declínio cognitivo associado ao envelhecimento.

A pesquisa, divulgada pela revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), avaliou os cérebros de 60 adultos saudáveis com idades entre 55 e 80 antes, durante e após o período de um ano de exercícios.

Os resultados apontaram que a temporada de atividade foi capaz de aumentar o tamanho do hipocampo em adultos mais velhos, levando a uma melhoria na memória espacial. Estudos anteriores apontaram que o hipocampo diminui com a idade, o que afeta a memória e aumenta o risco de demência.

De acordo com os pesquisadores, o grupo que praticou apenas exercícios de alongamento teve diminuição média de 1,40% no hipocampo esquerdo e de 1,43% no direito.

Já os participantes que caminharam por 40 minutos, três vezes por semana, tiveram um aumento de em média 2,12% no volume do hipocampo esquerdo e de 1,97% no direito, além de apresentarem melhoria nas funções de memória e aumento em diversos biomarcadores associados com a saúde cerebral, como no fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF, na sigla em inglês), uma pequena molécula envolvida na memória e na aprendizagem.

Para Arthur Kramer, da Universidade de Illinois e um dos autores da pesquisa, os resultados são bastante interessantes "por indicarem que mesmo pequenas quantidades de exercícios em adultos mais velhos e sedentários podem levar a melhorias substanciais na memória e na saúde cerebral".

Essa não é a primeira pesquisa a associar a prática de atividades físicas à melhoria da capacidade cerebral na velhice. Um estudo apresentado no final de 2010 pela Universidade de Pittsburgh apontou que pessoas que caminhavam no mínimo dez quilômetros por semana tinham metade do risco de sofrer de problemas de memória do que os que não se exercitavam.

Foto: MRBECK

Brasil desperdiça R$ 7,4 bi por ano com água

Brasil desperdiça R$ 7,4 bi por ano com água

O Brasil perde, ao ano, R$ 7,4 bilhões por falta de infraestrutura relacionada ao uso da água no território. Falta de investimentos e de manutenção dos sistemas já instalados são algumas das causas que fizeram o especialista em eficiência energética e da água, Airton Gomes, concluir o desperdício de recursos.

O consultor avaliou todos os gastos de acordo com as informações do relatório de 2008 do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), que cobriu 4.561 municípios, e alertou que dos 7,4 bilhões de reais, apenas R$ 4,4 bilhões ainda podem ser recuperados.

O SNIS analisa a produção, o tempo médio de abastecimento de 20 horas por dia, consumo autorizado não faturado e a estimativa de perdas reais e aparentes na realização do seu relatório anual.

Porém, para existir esta recuperação, grandes incentivos orçamentários deverão ser feitos nos sistemas de saneamento do país até a universalização dos serviços de água e esgoto previsto para 2015.

Uma maior fiscalização e manutenção das redes antigas de abastecimento merecem ser realizadas para impedir ligações clandestinas (os popularmente conhecidos como "gatos") e os erros de medição, creditando um total de R$ 10 bilhões em recursos do governo.

Para Gomes, as empresas brasileiras estão perdendo dinheiro com a falta de preocupação com os sistemas de abastecimento da água. Para reverter a situação, medidas urgentes devem ser tomadas para que o custo da redução da perda não se torne maior do que o resultado alcançado.

Falta de estrutura

Segundo o especialista, o grande número de sistemas de abastecimento instalados desde a década de 60 até hoje (de 500 para 5, 5 mil neste ano) pode ter sido responsável pela falta de organização do país quanto ao uso da água.

"Tem um caminhão de dinheiro, mas o setor demora de 4 a 5 anos para se reestruturar. Não tem quem faça projetos. Ou seja, não é uma questão apenas de dinheiro, pois não há quadro técnico.", destacou o consultor, que criticou também a grande quantidade de novas obras que vem sendo construídas.

Em relação ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o especialista analisou que os sistemas de abastecimento antigos foram preteridos às novas obras de infrestrutura, que traz mais visibilidade política as autoridades do setor. "Passamos décadas construindo sistemas. É preciso mudar a cultura de obras. Em tempos de PAC, só se pensou nisso", afirmou Gomes.

Já para o secretário nacional de Saneamento Ambiental do Ministério das Cidades, Leodegar Tiscoski, o governo está sim preocupado com a sustentabilidade do sistema a longo prazo. Segundo o secretário, o PAC 2 terá uma linha de crédito específica para a diminuição desses desperdícios de verbas para os antigos sistemas.

Foto: Keneth Cruz